Suicídio – uma discussão espiritual

Tirar a própria vida é o ato mais extremo de desafio ao nosso instinto mais fundamental, o da sobrevivência. O suicídio nunca é a primeira opção; ninguém busca o fim da própria existência a não ser como a saída última para quem não vê mais caminhos possíveis. Quantos se arrependem depois de terem tomado a dose letal de medicamento ou veneno? Quantos gostariam de voltar instantaneamente ao topo do edifício e fazer do salto uma mera ilusão? No entanto, muitos enxergam as vítimas dessa tenebrosa entrega como o indício de uma fraqueza, de uma perturbação ou como algo a ser punível eternamente. Nesse artigo queremos provocar novos olhares sobre o problema e injetar um pouco mais de compaixão no julgamento.

Na igreja católica as pessoas que se suicidaram não podiam ser enterradas em lugares santos como os cemitérios. Felizmente essa visão parece estar mudando e já se pondera que a misericórdia divina é maior que nosso entendimento sobre a questão. Ainda assim, o ato é considerado pecado grave porque ir contra a vida que é um dom dado por Deus e a Ele pertence é sempre inadmissível. (veja mais aqui).

Todos os espíritas kardecistas estão familiarizados com o conceito de vale dos suicidas popularizado por Yvonne Pereira em seu livro “Memórias de um suicida”. Embora o livro relate que nem todos que se mataram vão para esse vale de dores e sofrimentos, em geral o que ficou no entendimento dos adeptos dessa religião é que o suicídio é quase uma certeza de sofrimento ainda maior do outro lado da vida para o infeliz. Isso porque o suicida pode ficar preso ao corpo físico em decomposição ou ser submetido a torturas pela própria consciência ou mesmo a ataques por seres do baixo mundo espiritual.

Atualmente com os avanços da medicina, da psicologia e de outras ciências podemos compreender melhor o estado mental e espiritual que leva uma pessoa a se precipitar para fora do limite da existência encarnada. Imaginemos algumas situações para podermos refletir sobre alguns casos.

  • um indivíduo com um distúrbio orgânico conhecido como Transtorno Afetivo Bipolar tem alto risco de suicídio. Até 70% das vítimas da auto-eliminação eram portadoras de depressão e 3 entre quatro que conseguem por fim a si mesmos são homens, embora o número de mulheres que tentem seja duas vezes maior. O Transtorno Bipolar é um desequilíbrio do funcionamento do cérebro com um componente genético-hereditário significativo. Será que alguém já nasce pré-destinado para se suicidar? E se for assim, qual sua culpa se o seu cérebro não estava aparelhado(a) para ser feliz ou resiliente?
  • uma pessoa que esteja submetida à ação constante de obsessores, inclusive aqueles enviados por trabalhos de magia negra, pode ser levada a cometer esse ato. Nesse caso ela seria punida depois da morte por ter sido agredida em vida?
  • alguém que esteja com uma doença incurável e sabe que seguramente representará um fardo insuportável para seus familiares, decide terminar com a própria vida e poupar seus entes queridos. Ela é covarde ou generosa?
  • quem se voluntaria para a morte com o intuito de salvar a vida de outros por uma situação extrema como um naufrágio deve penar eternamente por seu sacrifício?
  • um doente em fase terminal que perdeu toda forma de dignidade humana e liberdade para ser e querer resolve conscientemente desistir de continuar lutando por seu corpo já consumido. Não será ele mais crente na continuidade da existência para além-túmulo do que outros que nem deixam seus parentes idosos morrerem em paz?

Talvez o suicídio seja o reflexo de uma deterioração profunda do estado mental/espiritual de um ser humano e a continuação do sofrimento do outro lado seja apenas a consequência de sua perturbação interna pré-existente. Mas não se pode julgar pela aparência. Cada caso é um caso que merece ser visto com amor e compaixão, deixando que o julgamento seja feito pelos senhores do karma.

Nos Contos de Jataka, texto popular do budismo que conta episódios das encarnações de Buda antes de Sua iluminação plena, há algumas passagens em que o buda, encarnado como um animal, oferece sua própria carne como alimento para outros bichos passando fome.

Dar a própria vida em sacrifício pode ser um ato excelso de doação ao próximo e foi isso que o Cristo Jesus fez. Pensemos sobre isso e veremos que há muito o que ponderar antes de poder dizer certo ou errado. No geral, as pessoas acreditam que a vida é o bem maior que Deus nos concede, porém a compaixão e o amor ao próximo pedem que sejamos mais compreensivos e amplos. O espírito é maior que a vida, porque é eterno e a encarnação é transitória.

A existência encarnada é um bem que deveria ser entendido como coletivo e individual ao mesmo tempo. Cada um tem a responsabilidade de cuidar bem de seu corpo e fazer dele um instrumento de evolução e elevação espiritual. Mas todos temos também o dever de não olhar só para nós mesmos e cuidar dos outros com o mesmo amor, garantindo que tenham condições de vida adequadas e a possibilidade de uma existência digna. Se o mandamento é amar a seu próximo como a si mesmo, o bem estar do outro deve ser tão importante quanto o seu.

Acima de tudo precisamos ficar atentos para as pessoas próximas de nós que se encontram em situações de risco, seja por depressão ou qualquer outra condição extrema. Temos que manter uma rede de segurança, sustentada por nossos vínculos sociais, para identificar e cuidar de quem precisa antes que algo grave aconteça. Percebendo em alguém os sinais de instabilidade no compromisso com a própria vida, devemos saber acolher imediatamente, amparar e cuidar para buscar soluções que permitam uma renovação do elo vital. Temos que amar uns ao outros para saber das coisas antes que elas aconteçam. Um minuto depois já é tarde demais.

por Roger Soares

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