Médium da coroa grande: será mesmo?

Está na hora de começarmos a questionar certos hábitos comuns a muitos terreiros de Umbanda. Um deles é o de estimular a vaidade dos médiuns novos e inexperientes. Como se faz isso? É simples! Logo ao entrar no terreiro o novo médium, ainda na condição de consulente, passa com um guia incorporado e já ouve frases do tipo: filho, você tem muita luz! tem uma grande cobertura astral! seu caboclo é um cacique do peito de aço! seu preto velho é um sacerdote chefe! seu exú é poderoso e perigoso! A sua coroa mediúnica é grande e você tem entidades das sete linhas! Você, irmão ou irmã de fé, já passou por isso? Então continue lendo as próximas linhas…

É verdade que existem hierarquias espirituais e que há entidades de muita luz trabalhando na Umbanda. Na nossa doutrina acreditamos na existência de 3 níveis de guias espirituais: protetores, guias e orixás intermediários. Os protetores estão mais próximos de nós e trabalham com médiuns de karma probatório. Os guias já se encontram em um plano mais elevado e trabalham com médiuns de karma evolutivo. Os orixás intermediários são espíritos extremamente elevados e preferem outras formas de manifestação além da incorporação, buscando atingir um número maior de pessoas pois são responsáveis por grandes coletividades. Os orixás intermediários atuam em médiuns de karma missionário.

No entanto, esses espíritos quando se manifestam de verdade em bons médiuns nunca vêm dizendo que são os maiorais e que são grandes chefes. Os pretos velhos e pretas velhas são sempre humildes, mansos, serenos. Seria muita contradição pregar a humildade e se vangloriar de seu grau hierárquico. Se quisessem ser orgulhosos, não se chamariam Pai Congo, Vovó Catarina etc. Eles diriam: sou o comandante da sétima esfera estelar, sou o rei do Egito, sou Moisés etc. Portanto, você que tem a tarefa mediúnica, acautele-se para não se deixar levar por estórias de pessoas perturbadas que querem lhe envolver em seus devaneios e sonhos de grandeza.

Os caboclos seguem a mesma toada dos pretos velhos. Para que usariam grandes cocares se por escolha própria vieram trabalhar na Umbanda na forma de índios? O caboclo é símbolo de simplicidade, assim como o preto velho é de humildade e a criança é símbolo de pureza. Simplesmente não faz sentido agir de maneira oposta ao fundamento de seu trabalho. Um guia de verdade não vai se gabar de seus poderes ou conhecimentos. Uma entidade de luz não precisa de nenhum tipo de reconhecimento. Ela já tem tudo o que precisa que são suas ordens e direitos de trabalho.

Já os médiuns são seres humanos que lutam com suas fraquezas e dificuldades, buscando a evolução e a libertação espiritual. É natural que queiram se sentir importantes e ter um guia chefe na sua coroa é uma verdadeira massagem no ego. Mas para tudo existe um preço. Vejamos o que se paga a seguir.

Deve haver uma sintonia entre o médium e a entidade que lhe assiste. Quanto mais elevada é a entidade, mais elevado dever ser também o médium para suportar a conexão espiritual. Os médiuns de karma probatório têm a cobertura dos protetores de Umbanda. Eles também são entidades de luz, como qualquer guia de Umbanda, mas trazem com eles as tarefas que seu médium é capaz de dar conta. Ser médium de karma probatório significa atender as pessoas na caridade, ter a oportunidade de resgatar karmas negativos do passado por meio do serviço mediúnico e ter o apoio de seus guias para resolver seus próprios conflitos pessoais, familiares, financeiros etc. Esse médium dedica uma parte de sua vida ao trabalho espiritual e aproveita as bençãos do mundo espiritual.

Os médiuns de entidades no grau de guia estão em geral no nível de karma evolutivo. Já possuem um conhecimento maior da espiritualidade, estudam sempre e dedicam grande parte de sua vida ao compromisso espiritual que assumiram antes de encarnar. As amenidades da vida prosaica não lhes atraem mais e, por isso, têm pouco tempo para festas e diversões. Sua tarefa mediúnica os coloca na posição de orientadores, podendo ser dirigentes de terreiros ou não. Como estão na condição de instrutores, chamam para si a responsabilidade de conduzir o caminho de grupos de médiuns e utilizam boa parte de seu tempo cuidando dos outros.

No plano mais elevado estão os médiuns de karma missionário. Eles são “aparelhos” de entidades no grau de Orixás intermediários. Como tal, devem ter já superado os dilemas da vida cotidiana e a maior parte dos conflitos internos. Isso significa que mesmo na pobreza são capazes de manter a serenidade e o bom ânimo. Dedicam quase toda a vida a servir ao próximo, orientando, cuidando, aconselhando e, principalmente, servindo de exemplo de humildade, sabedoria, simplicidade e compaixão. A caridade é o bem mais elevado que possuem. Têm pouco ou nenhum tempo para questões familiares. Não buscam lazer porque o contato espiritual é seu alimento e estão em função disso 24 horas por dia. Apesar de todos os benefícios que geram incessantemente aos outros, com freqüência são incompreendidos e não se importam de serem sacrificados, desde que cumpram a missão que lhes foi confiada pelo Astral Superior. Seu campo de ação espiritual afeta milhares ou milhões de pessoas. Chico Xavier é um grande exemplo de médium missionário. Matta e Silva, apesar da grande repercussão de seu trabalho, se considerava um iniciado de nível médio…

Então, irmãos, podemos ver que a coroa grande vem também com uma grande responsabilidade e muito pouco tempo para o desfrute do mundo. Usem o bem senso e verifiquem se o médium que diz ser veículo de entidades altamente elevadas é também, ele mesmo, elevado e desapegado das coisas materiais. Não se deixem influenciar por ilusões de grandeza e poder. O caminho espiritual é árduo e a recompensa é se tornar cada vez mais humilde. Quem quer ser o maior de todos, seja o servidor de todos; já dizia Nosso Senhor, o Cristo Jesus.

Hierarquias Espirituais de Umbanda

Por mais que nosso planeta seja um campo de expiações, onde muitas vezes o sofrimento se faz necessário ao aprendizado, existem seres iluminados dispostos a guiar a humanidade no caminho da espiritualidade. Esses espíritos benevolentes já se livraram dos “grilhões” que nos prendem a roda das encarnações e seguem trabalhando em prol daqueles que ainda dependem dessa via de evolução para despertar suas consciências a uma realidade superior. Esses espíritos de luz se organizam de maneira hierárquica e harmoniosa, seguindo as leis divinas, que são perfeitas e incorruptíveis.

Na visão da Umbanda Esotérica, as entidades que se manifestam nos terreiros, estão em um grau evolutivo superior ao dos seres encarnados, possuem experiência e sabedoria elevada, atuaram em diversos movimentos espirituais durante suas encarnações e agora militam na Corrente Astral de Umbanda. Apresentam-se nas formas de Caboclos, Pretos Velhos e Crianças. Estão sob o comando e supervisão direta do Cristo, o Sr. Jesus. São essas entidades que compõem as Hierarquias Espirituais de Umbanda.

Nas obras do mestre W. W. da Mata e Silva são descritos os planos e graus das hierarquias espirituais, onde existem 3 planos (orixás, guias e protetores) que agregam 7 graus ou vibrações ascendentes.

No primeiro plano encontram-se os Orixás Intermediários em número de 399 entidades em cada linha ou vibração do Orixá, discriminadas da seguinte maneira: 7 Orixás Principais que ordenam 7 Chefes de Legiões, 49 Orixás Chefes de Falange e 343 Orixás Chefes de Subfalanges, compondo os 1º, 2º e 3º graus, respectivamente.

Consideramos 7 as Linhas ou Vibrações de Orixás na Umbanda Esotérica (Oxalá, Yemanjá, Yóri, Xangô, Ogum, Oxossi e Yorimá), portanto multiplicamos esses valores em 7, e teremos 2.793 atuando no 1º plano da hierarquia espiritual. Sendo que os 7 Orixás Principais de cada linha não incorporam, logo são 2.743 as entidades que podem atuar na incorporação, assumindo a responsabilidade mediúnica.

No segundo plano, situados no 4º grau, estão os denominados Guias atuando como Chefes de Grupamentos, em número de 2.401 em cada linha ou vibração, totalizando 16.807.

No 3º plano, constituindo os 5º, 6º e 7º graus ou vibrações, estão os Protetores, que atuam como Integrantes de Grupamentos. Sendo no 5º grau 16.807, no 6º grau grau 117.649 e no 7º grau 823.543, sendo esses números para cada linha ou vibração, totalizando 6.705.993 de espíritos atuando no 3º plano.

Podemos observar que o número de entidades situadas no 2º grau, é 7 vezes o número das situadas no 1º, e assim segue-se multiplicando pelo número 7 até o 7º grau, estendendo-se aos subgrupamentos até limitar todos os seres do mundo astral. O porquê dessa lógica é um assunto de cunho iniciático, do entendimento daqueles que se aprofundam nos mistérios através do estudo e prática, mas podemos considerar que 7 são os Orixás ou Linhas que manifestam suas vibrações sobre 7 espíritos e cada um sobre mais 7 e assim teremos os resultados obtidos acima.

No livro Umbanda de Todos Nós, capítulo 7, do escritor W. W. da Mata e Silva, podemos encontrar um mapa para melhor visualização e entendimento da formação da Hierarquia Espiritual de Umbanda.

mapa 4

Lembramos que todas as entidades que atuam nos terreiros de Umbanda possuem os conhecimentos necessários para suas funções, independente do grau em que esteja situada. O grau das entidades que o médium terá como mentores, serão de acordo com seu grau de evolução, podendo ser identificado dentro da iniciação. Um médium que já alcançou algum mérito durante encarnações anteriores poderá ser assistido por uma entidade no grau de Guia ou até mesmo de Orixá, e provavelmente será o chefe de um terreiro ou casa, porém esses médiuns são em minoria, sendo que 80% dos médiuns atuantes na Umbanda trabalham com entidades situadas no 3º plano, o que não desqualifica os trabalhos realizados, pois o simples contato com um autêntico protetor que milita na Corrente Astral de Umbanda já traz diversos benefícios para o médium e os consulentes.

Devemos entender que as entidades que compõem as Hierarquias Espirituais de Umbanda, atuam com o único objetivo de guiar os filhos de fé para o despertar de sua consciência, alcançando assim sua libertação do mundo das formas, e seguindo para vias de evolução ainda desconhecidas por todos nós.

 

Saravá! Salve todas as Bandas de Umbanda!

Renato Antonio Rainha

Suicídio – uma discussão espiritual

Tirar a própria vida é o ato mais extremo de desafio ao nosso instinto mais fundamental, o da sobrevivência. O suicídio nunca é a primeira opção; ninguém busca o fim da própria existência a não ser como a saída última para quem não vê mais caminhos possíveis. Quantos se arrependem depois de terem tomado a dose letal de medicamento ou veneno? Quantos gostariam de voltar instantaneamente ao topo do edifício e fazer do salto uma mera ilusão? No entanto, muitos enxergam as vítimas dessa tenebrosa entrega como o indício de uma fraqueza, de uma perturbação ou como algo a ser punível eternamente. Nesse artigo queremos provocar novos olhares sobre o problema e injetar um pouco mais de compaixão no julgamento.

Na igreja católica as pessoas que se suicidaram não podiam ser enterradas em lugares santos como os cemitérios. Felizmente essa visão parece estar mudando e já se pondera que a misericórdia divina é maior que nosso entendimento sobre a questão. Ainda assim, o ato é considerado pecado grave porque ir contra a vida que é um dom dado por Deus e a Ele pertence é sempre inadmissível. (veja mais aqui).

Todos os espíritas kardecistas estão familiarizados com o conceito de vale dos suicidas popularizado por Yvonne Pereira em seu livro “Memórias de um suicida”. Embora o livro relate que nem todos que se mataram vão para esse vale de dores e sofrimentos, em geral o que ficou no entendimento dos adeptos dessa religião é que o suicídio é quase uma certeza de sofrimento ainda maior do outro lado da vida para o infeliz. Isso porque o suicida pode ficar preso ao corpo físico em decomposição ou ser submetido a torturas pela própria consciência ou mesmo a ataques por seres do baixo mundo espiritual.

Atualmente com os avanços da medicina, da psicologia e de outras ciências podemos compreender melhor o estado mental e espiritual que leva uma pessoa a se precipitar para fora do limite da existência encarnada. Imaginemos algumas situações para podermos refletir sobre alguns casos.

  • um indivíduo com um distúrbio orgânico conhecido como Transtorno Afetivo Bipolar tem alto risco de suicídio. Até 70% das vítimas da auto-eliminação eram portadoras de depressão e 3 entre quatro que conseguem por fim a si mesmos são homens, embora o número de mulheres que tentem seja duas vezes maior. O Transtorno Bipolar é um desequilíbrio do funcionamento do cérebro com um componente genético-hereditário significativo. Será que alguém já nasce pré-destinado para se suicidar? E se for assim, qual sua culpa se o seu cérebro não estava aparelhado(a) para ser feliz ou resiliente?
  • uma pessoa que esteja submetida à ação constante de obsessores, inclusive aqueles enviados por trabalhos de magia negra, pode ser levada a cometer esse ato. Nesse caso ela seria punida depois da morte por ter sido agredida em vida?
  • alguém que esteja com uma doença incurável e sabe que seguramente representará um fardo insuportável para seus familiares, decide terminar com a própria vida e poupar seus entes queridos. Ela é covarde ou generosa?
  • quem se voluntaria para a morte com o intuito de salvar a vida de outros por uma situação extrema como um naufrágio deve penar eternamente por seu sacrifício?
  • um doente em fase terminal que perdeu toda forma de dignidade humana e liberdade para ser e querer resolve conscientemente desistir de continuar lutando por seu corpo já consumido. Não será ele mais crente na continuidade da existência para além-túmulo do que outros que nem deixam seus parentes idosos morrerem em paz?

Talvez o suicídio seja o reflexo de uma deterioração profunda do estado mental/espiritual de um ser humano e a continuação do sofrimento do outro lado seja apenas a consequência de sua perturbação interna pré-existente. Mas não se pode julgar pela aparência. Cada caso é um caso que merece ser visto com amor e compaixão, deixando que o julgamento seja feito pelos senhores do karma.

Nos Contos de Jataka, texto popular do budismo que conta episódios das encarnações de Buda antes de Sua iluminação plena, há algumas passagens em que o buda, encarnado como um animal, oferece sua própria carne como alimento para outros bichos passando fome.

Dar a própria vida em sacrifício pode ser um ato excelso de doação ao próximo e foi isso que o Cristo Jesus fez. Pensemos sobre isso e veremos que há muito o que ponderar antes de poder dizer certo ou errado. No geral, as pessoas acreditam que a vida é o bem maior que Deus nos concede, porém a compaixão e o amor ao próximo pedem que sejamos mais compreensivos e amplos. O espírito é maior que a vida, porque é eterno e a encarnação é transitória.

A existência encarnada é um bem que deveria ser entendido como coletivo e individual ao mesmo tempo. Cada um tem a responsabilidade de cuidar bem de seu corpo e fazer dele um instrumento de evolução e elevação espiritual. Mas todos temos também o dever de não olhar só para nós mesmos e cuidar dos outros com o mesmo amor, garantindo que tenham condições de vida adequadas e a possibilidade de uma existência digna. Se o mandamento é amar a seu próximo como a si mesmo, o bem estar do outro deve ser tão importante quanto o seu.

Acima de tudo precisamos ficar atentos para as pessoas próximas de nós que se encontram em situações de risco, seja por depressão ou qualquer outra condição extrema. Temos que manter uma rede de segurança, sustentada por nossos vínculos sociais, para identificar e cuidar de quem precisa antes que algo grave aconteça. Percebendo em alguém os sinais de instabilidade no compromisso com a própria vida, devemos saber acolher imediatamente, amparar e cuidar para buscar soluções que permitam uma renovação do elo vital. Temos que amar uns ao outros para saber das coisas antes que elas aconteçam. Um minuto depois já é tarde demais.

por Roger Soares

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