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O intuito desse blog é postar alguns dos meus textos, sejam eles feitos para trabalhos da faculdade ou exclusivamente para vocês. Aqui você vai encontrar diferentes filosofias de diferentes épocas e culturas. Sinta-se livre para explorar e deixar seu comentário ou pergunta!

A técnica para Ortega y Gasset

A técnica para Ortega y Gasset

Este resumo abordará o primeiro capítulo de “Meditação da Técnica”, obra de Ortega y Gasset. Tal capítulo apresentará uma definição precisa, apesar de chamada de “tosca” pelo próprio autor, à pergunta “Que é a técnica?”. O autor vai mostrar como a técnica surgiu, qual foi o motivo para essa vontade de “reformar” a natureza, como ele coloca.

O capítulo se inicia com uma proposta: responder à pergunta “Que é a técnica?”, para que seus leitores estejam preparados quando essa pergunta surgir, uma vez que ele aponta que este será um tema bastante discutido num futuro próximo. Gasset faz uma observação antes de iniciar sua discussão sobre o assunto. Ele afirma que, apesar de muitos acharem controverso, o homem escolhe viver, isso não lhe é imposto. Tal afirmação leva a explicação num rumo interessante. Mas isso será explicado no decorrer do resumo.

Para iniciar sua resposta à pergunta, o autor cria uma narrativa. Um homem está numa tempestade, com frio, no momento em que um relâmpago atinge um posto no bosque e o ateia fogo. O homem então se aproxima para aquecer-se, uma vez que o frio ameaça a existência que o homem deseja ter. O acaso salvou a vida do homem, não fosse pelo relâmpago ele teria morrido de frio. 

O homem precisa de coisas como se aquecer, se alimentar ou até fugir de uma presa para sobreviver. Como dito, essas coisas não são necessárias por si, mas para que o homem continue vivo – lembrando que isso não se passa de uma escolha, na visão do autor. Esses são fatores inevitáveis, ou “inevitabilidades”, para que o homem tenha a existência tão desejada. Caso ele pudesse escolher não ter tais necessidades, ele assim faria e ainda lhe restariam muitas coisas a fazer, e isso é um ponto importante. Diferente dos outros animais, a vida do homem não se resume às suas necessidades fisiológicas. Ao leão não resta nada a não ser passar fome e ir caçar ou passar sede e buscar água, mas isso não é verdade para o homem. O homem deseja existir, e essas necessidades são apenas empecilhos.

E isso, inesperadamente, nos descobre a constituição estranhíssima do homem: enquanto todos os demais seres coincidem com suas condições objetivas – com a natureza ou circunstância – o homem não coincide com esta, já que é alguma coisa alheia e distinta de sua circunstância; mas não tendo outro remédio, se quer ser e estar nela, tem que aceitar as condições que esta lhe impõe. (ORTEGA Y GASSET, 1939, p. 12)

“O empenho em viver é tão grande que quando o homem não pode satisfazer as necessidades inerentes à sua vida” (ORTEGA Y GASSET, 1939), pelo fato de ao seu redor não o serem dados os elementos necessários para sua sobrevivência, ele os faz, cria seu próprio fogo, planta sua própria comida, inventa uma ferramenta de caça, faz uma construção alta para ficar longe de predadores naturais, tudo para eliminar os “empecilhos”. É errônea, segundo Gasset, a tentativa de definir a técnica como algo que satisfaça as necessidades do homem, pelo contrário, ela tenta as anular. A técnica segundo o autor é “a reforma que o homem impõe à natureza em vista da satisfação de suas necessidades”, ou seja, o indivíduo altera o meio, a natureza, para não mais ser atrapalhado pelas necessidades impostas por ela, como um contra-ataque a esta. Ele cria coisas que nunca existiram ou que não existam no atual momento para que sua existência não seja ameaçada. E tudo isso deriva de sua escolha de viver.

Este capítulo do livro é muito interessante para perceber como surgem os atos técnicos na existência do homem. Esses atos técnicos surgem no momento em que o homem precisa de elementos dos quais sua existência depende, mas que naquele momento não estão presentes. Como o próprio autor diz, se todas as vezes que o homem passasse frio a natureza o fornecesse calor, ele não precisaria fazer fogo. A necessidade da técnica surge, portanto, das dificuldades que a natureza apresenta com relação ao desejo do homem de não apenas sobreviver, mas de viver.

Mas este é apenas o primeiro capítulo. Convido todos a lerem esse incrível livro chamado “Meditação da técnica”, de Ortega y Gasset.

Teoria crítica e Psicanálise

Teoria crítica e Psicanálise

Entre as décadas de 1920 e 1930, surge uma perspectiva filosófica que seria adotada, entre outras correntes, pela Escola de Frankfurt: o freudo-marxismo. Tal perspectiva teve como objetivo analisar a sociedade tanto por meio da lente econômica, desenvolvida por Karl Marx, quanto pela lente psicanalítica, desenvolvida por Sigmund Freud.

Um dos motivos que levaram à necessidade da utilização de tal método pela Teoria Crítica foi o funcionamento da ideologia. Era nítido que a ideologia não tinha bases exclusivas na análise econômica, não haviam motivos lógicos econômicos para, por exemplo, uma família pobre na Alemanha nazista sustentar e apoiar avidamente um discurso autoritário que apenas a tornava mais pobre e que, além disso, muitas vezes tiravam seus filhos de seus próprios braços para morrerem na guerra em prol da manutenção desse regime. Os pensadores da época se depararam com uma barreira na análise econômica da sociedade: a ideologia. Não era mais possível ignorar o fator psicológico, que tem um enorme valor em todas as mutações e permanências vividas até hoje.

Tendo isso em vista, Horkheimer se distancia, no oitavo capítulo de xxx “Autoridade e Família”, da análise social feita pela teoria idealista. Ao passo que esses acreditavam haver um “fatalismo”, uma “força espiritual” regente, responsável pelas mudanças ao longo da história, tornando-a um mero “desdobramento ou representação de um princípio homogêneo”, Horkheimer vai dizer que as necessidades econômicas ditam as mudanças na estrutura psíquica do indivíduo, dos grupos e das sociedades. Com isso, nota-se que as mudanças históricas não são fruto de uma “força espiritual”, mas de um “processo da ação recíproca entre natureza e sociedade, cultura existente e em devir, liberdade e necessidade”.

Torna-se extremamente clara a necessidade de uma avaliação de instância psíquica nesse oitavo capítulo. O autor afirma que, ao analisar as chamadas “eras”, como a Idade Média, por exemplo, evidenciam-se mudanças (ou tendências), como “a posição das classes sociais entre si”, e permanências (ou normalidades), como o “processo mecânico de trabalho”. Segundo Horkheimer, era “altamente verdadeiro” que a forma de vida predominante na Europa no início do século XX conduziria ao seu auto declínio. Tanto as tensões externas, a guerra entre as grandes nações de poder, quanto as internas, a luta entre as classes sociais, levaria inevitavelmente, às lentes de uma análise puramente econômica, ao fim desse “regime social”. Entretanto, não foi isso que aconteceu. O autor aponta que “o modo de agir dos homens, porém, num dado instante, não pode ser explicado somente pelos processos econômicos que ocorreram no momento imediatamente anterior”, torna-se necessária uma compreensão da “constituição psíquica” daquele indivíduo enquanto membro daquela classe, daquela cultura, daquela família.

Ao se analisar “os conceitos gerais que constituem o fundamento da teoria social”, é de suma importância defini-los enquanto pertencentes à época em análise e enquanto elemento não isolado de outros conceitos. O autor deixa isso claro quando disserta sobre a autoridade. Em uma imensa maioria das civilizações, se não em todas, uma maioria se subordina a uma minoria, e isso sempre levou, invariavelmente, a uma “piora da existência material” da maioria. Como o próprio Horkheimer aponta, é certo que houveram épocas nas quais escravos eram fisicamente forçados a realizar suas tarefas. Entretanto, existiu e existe uma imensidão de grupos civilizatórios nos quais os indivíduos se subordinam voluntariamente às autoridades, um interesse “real e consciente” de manter essa ordem autoritária, por mais que esse não esteja incluído no grupo dominante, o que torna toda essa relação ainda mais estranha. 

A possibilidade de explicar esse evento analisando o indivíduo e seu caráter como sendo formados de modo isolado em relação à sociedade não é mais satisfatória, se torna óbvia a conexão. Não existem mais argumentos sólidos capazes de sustentar uma argumentação que independe do fator psíquico do indivíduo enquanto criado, educado e desenvolvido nesse meio. A relação, inicialmente, com os pais e, posteriormente, com outros ciclos (escola, trabalho, religião, amigos) é fator decisivo para a manutenção ou destruição do regime social vigente. Segundo Horkheimer (1990, p.213) “Considero o homem, diz Helvétius, ‘um aluno de todos os objetos que o rodeiam, de todas as situações que o coloca o acaso, enfim de todos os fatos que lhe acontecem’” 

O fator mais importante e indispensável para perpetuar a aceitação do absolutismo no indivíduo é a família. Essa instituição é tão importante que dá nome ao capítulo tratado, “Autoridade e família”. Existem alguns mecanismos ocorrentes no período de desenvolvimento do indivíduo em relação aos seus pais que são responsáveis por moldar o consciente e o inconsciente desse. Horkheimer deixa nítida a influência dos pais sob os sentimentos e desejos daquela criança. A família molda o indivíduo em acordo com o que se deseja de um homem ou uma mulher adulto(a), em acordo com o esperado pela sociedade, mais especificamente pela burguesia, que deseja permanecer no poder e desincentiva qualquer atitude rebelde que coloque em xeque o seu prestígio social.

Essa se tornou uma forma extraordinária de manipulação, de absolutismo. Se torna literalmente absoluto o poder burguês, ele controla consciente e inconscientemente os sentimentos e desejos das outras classes e da sua . E, por meio dos mecanismos que serão abordados posteriormente, essa manipulação se perpetua de pai para filho com excelência, e dificilmente essa corrente é quebrada.

Como o autor bem aponta, “a tarefa da família de educar para o comportamento autoritário” já havia sido aplicada pelo cristianismo, e o próprio Santo Agostinho comentou sobre. Horkheimer cita um trecho da obra de Agostinho no qual é explicado a importância de a dicotomia mandar e obedecer ser introduzida no meio familiar, para adaptar o indivíduo a essa dicotomia “natural” no ambiente extrafamiliar. Entretanto, apesar de essa relação estar presente no texto de Santo Agostinho, há uma grande diferença: o autor medieval trata apenas da imposição consciente. 

Esse trecho foi trazido pelo autor apenas para expor que a manipulação familiar já era presente mesmo no período medieval. Será aprofundado, no entanto, a instância primordial e não comentada que é a inconsciente.

Ainda consciente, mas de forma um pouco mais profunda, a manipulação da doutrina protestante teve papel essencial na força de manutenção do regime social que privilegia a burguesia. A ideia de predestinação trazida por essa religião torna muito mais fácil a manipulação da massa. Se a criança de classe baixa não consegue ser um empresário, por exemplo, não é por conta do sistema que não lhe dá oportunidades, mas dela, que não tem vocação para aquilo, ou até mesmo de Deus, que não escreveu no livro do destino que ela seria rica.

Toda a explicação presente neste texto até o momento é de ordem consciente, ainda não foram abordados argumentos que sustentem a explicação inconsciente desse fenômeno. Como já dito, é imprescindível analisar a parte inconsciente. Existem elementos presentes em uma imensa parte dos indivíduos que, por mais que eles próprios não tenham consciência, os impedem de questionar tal regime social, de questionar o porquê de ele precisar trabalhar 15h por dia para não morrer de fome, ou o porquê de ele precisar correr risco de vida em uma guerra para “defender sua nação”, nação essa que não faz absolutamente nada por ele.

Abordarei aqui dois fatores psíquicos que julgo de suma importância para a compreensão desse fenômeno: o conceito psicanalítico de identificação e o par sadismo-masoquismo. Comecemos, então, pelo conceito de identificação.

O significado de identificação na psicanálise é um pouco diferente do que o que se utiliza habitualmente na língua portuguesa. Não se trata de uma identificação no sentido de encontrar algo no outro que se assemelha a um elemento que se tem em si, mas tornar-se idêntico ao outro. A identificação que nos interessa 

corresponde à forma reflexiva do verbo ‘identificar’, isto é, ‘identificar-se’. Diremos que um sujeito se identifica com alguém ou alguma coisa quando ele se confunde com esse alguém ou essa coisa, quando ele vai até o outro para assimilá-lo e assimilar-se a ele, até tornar-se idêntico. (NASIO, 1999, p.80)

Existem, então, dois tipos de identificação: a consciente e a inconsciente. A primeira é um movimento consciente do indivíduo em direção ao outro, seja esse outro um ídolo, um líder ou seu próprio pai. A segunda, que é a que mais nos interessa, se dá de uma maneira que o indivíduo não tem consciência, apesar de ser um movimento ativo, de que está se tornando idêntico ao outro. Dividiremos, ainda, a identificação inconsciente em duas classes, que chamaremos aqui de identificação de traços físicos e a de traços sentimentais. A identificação de traços físicos é percebida quando, por exemplo, o filho começa a falar no mesmo tom que o pai, caminhar na mesma passada, fazer os mesmos gestos, e tudo isso de forma inconsciente. A segunda forma de identificação, que é novamente a que cabe ao texto, é a de traços sentimentais. 

Nesse tipo de identificação o indivíduo começa a assumir para si, de forma inconsciente, as “emoções, sentimentos, afetos, desejos e até fantasias” (NASIO, 1999, p. 82) daquele com o qual ele se identifica. Nesse sentido, então, o filho, por exemplo, começa a ter os mesmos medos e desejos do pai. Entretanto, pode ocorrer um fenômeno interessante que é o fato de muitas vezes os sentimentos que o filho adota do pai serem desconhecidos até mesmo pelo próprio pai, medos e desejos presentes apenas no inconsciente do pai dos quais ele não tem consciência. Isso permite, portanto, que os medos presentes no inconsciente do pai em relação à autoridade da burguesia, em relação à própria autoridade em si, relações de obediência e etc. sejam transferidos para o inconsciente do filho sem que ambos percebam. Esse fenômeno permite, portanto, que o medo em relação à autoridade burguesa, ou qualquer outra autoridade, seja perpetuado por gerações sem que isso seja percebido.

Outro fator de grande importância para a compreensão do porquê o caráter autoritário ser tão presente na sociedade analisada por Horkheimer é o sadismo-masoquismo, ou sadomasoquismo, termo utilizado particularmente por Daniel Lagache. Sadismo e masoquismo são dois conceitos que, segundo a teoria psicanalítica, estão interligados. 

Erich Fromm, psicanalista e filósofo do século XX, foi um dos pilares da discussão que intersecciona o sadomasoquismo e a Teoria Crítica. Segundo o psicanalista, “o caráter sadomasoquista constitui a base pulsional da personalidade autoritária” (ROUANET, 1986, p.55). Mas é necessário, antes, passar pela explicação referente ao sadomasoquismo em si para, posteriormente, abordá-lo enquanto ferramenta de análise social.

O sadismo consiste na realização da pulsão de dominação do indivíduo, enquanto o masoquismo é o retorno dessa pulsão ao mesmo. O prazer no sadomasoquismo está relacionado, portanto, em um momento, na obediência ao dominante e, em outro, em ser o dominante. 

“A submissão incondicional ao poder implica, ao mesmo tempo, inveja e agressividade” (ROUANET, 1986, p.56). Por mais que haja prazer na obediência, o indivíduo tem inveja da posição de dominância e deseja estar nela também, no entanto, ao trazer o sadomasoquismo para a Teoria Crítica, essa mudança de postos (dominante-dominado) não se dá entre as mesmas pessoas. 

No capitalismo monopolista, como era o caso da Alemanha nazista, existia uma enorme aceitação em relação à opressão do Führer. Em relação a ele, os papéis nunca mudavam, ele sempre seria o dominante e o restante da população seriam os dominados. Mas, como já dito, as pessoas de caráter sadomasoquista desejam ocupar os dois postos e, portanto, assim faziam.

“Os sentimentos hostis e agressivos que não podem dirigir-se contra os poderosos dirigem-se contra os débeis, A impossibilidade de exercer sua vontade contra os fortes é compensada pelo prazer de sujeitar os indefesos a uma tirania implacável” (FROMM, 1932, p.287)

“O capitalismo monopolista altera os dados da realidade”. A cada vez maior concentração econômica, e, por consequência, de poder, anula aquela ilusão de mobilidade econômica implementada pela lógica liberal. A crise e o desemprego começam a assumir forças “irredutíveis à ação consciente do homem” e “nesse momento, o caráter sadomasoquista se torna dominante”, pois quanto mais guerras e catástrofes tomam conta da vida do indivíduo, mais “violenta e mais generalizada é a estrutura pulsional sadomasoquista, e, portanto, a estrutura caracterológica autoritária”. O caráter masoquista que permite o prazer nesse tipo de situação, é o que “permite ao homem suportar tal existência” e mostra-se “como uma das condições psíquicas mais importantes para o funcionamento da sociedade” (FROMM, 1932, p.291). Tal caráter sadomasoquista se torna, então, uma ferramenta muito poderosa na manutenção do sistema autoritário. Este permite a aceitação do domínio de um grupo pequeno de pessoas ou até mesmo de uma única pessoa, o Führer messiânico.

A forma que o indivíduo pensa não é mais a mesma do liberalismo, ele sabe que não há mais possibilidade de ascensão, mas além de tudo, ele tem a “vontade de não ascender”. O homem é, então, moldado a sentir prazer com tal situação. Entretanto, ele sabe que o Führer “não é um modelo a ser imitado”, este é muito superior. Não podendo ser igual a ele, o indivíduo tenta “participar de sua grandeza” desta forma:

Essa gratificação substitutiva narcisista, obtida pela submissão masoquista a um Poder mais alto, não é alcançada apenas na relação com o líder, mas no fato de participar do brilho da Nação ou da Raça. Quanto mais o indivíduo valoriza a força e a grandeza do Poder do qual participa, maior sua gratificação. (FROMM, 1932, p. 294)

O indivíduo está, agora, devidamente manipulado. As formas de socialização deste, primeiro com a família, e, posteriormente, com “aparelhos de Estado”, buscarão a produção em massa de homens e mulheres com caráter social sadomasoquista, assegurando, assim, a manutenção desse regime social, o capitalismo monopolista.

Estes conceitos psicanalíticos (a identificação e o sadomasoquismo) são apenas dois que podem ser e foram utilizados como ferramentas no auxílio da análise social realizada pela Teoria Crítica. Como Horkheimer bem apontou, passou a ser impossível entender os fenômenos ocorridos na sociedade apenas através de uma análise socioeconômica que independe do fator psíquico e, de fato, isso se mostrou verdadeiro. A compreensão dos movimentos sociais fica mais clara ao ser desenvolvida uma explicação que leve em conta conceitos psicanalíticos.

Kant e o sono dogmático

Kant e o sono dogmático

Tendo em vista a passagem dos Prolegômenos, de Immanuel Kant, na qual o filósofo afirma que David Hume foi o grande responsável por retirar-lhe de seu sono dogmático, este trabalho visa elucidar qual foi a crítica de Hume à metafísica responsável por incentivar Kant a estabelecer um estatuto científico da metafísica, assim como as demais áreas da ciência, como a matemática e a física, já possuíam. 

A metafísica, até Hume, era tida como necessária e inquestionavelmente verdadeira. Os conceitos produzidos por ela eram tidos, para os filósofos, como imprescindíveis, por isso Kant afirma que essa área da filosofia era extremamente dogmática. Mas de que forma D. Hume mudou o rumo da discussão? 

O cético e empirista Hume fez uma proposição que, apesar de não ter sido tida como relevante pelos filósofos de seu tempo, como Reid, Oswald Beattie, e finalmente Priestley, deveria, segundo Kant, ter levado esses a pensar e defender a metafísica. O ataque do pensador empirista à metafísica foi: com base em que a razão postula a necessidade da conexão de causa e efeito? Por que ela acha que determinado resultado é imprescindível uma vez que isto ou aquilo foi posto? Hume provou, segundo Kant, “de modo irrefutável”, que essa conexão de causa e efeito que a razão tenta produzir é inteiramente fictícia, um bastardo da imaginação, fruto do hábito da razão que, por ter conhecido essa conexão uma vez, a julga sempre necessária. Essa afronta foi, aos olhos de Kant, algo que poderia ter “acendido uma luz, caso tivesse encontrado uma mecha receptiva cuja chama fosse cuidadosamente mantida e alimentada”. Hume, entretanto, se precipitou, segundo o filósofo prussiano, ao dizer que, por conta disso, a metafísica não era logicamente possível. O empirista afirmou que, o fato de as supostas cognições a priori da metafísica serem fruto de uma conclusão fictícia, a saber, a conexão entre causa e efeito, a tornava, consequentemente, mera ficção da razão. Apesar de precipitada, é uma crítica embasada num pensamento lógico, e que deveria ter tido mais atenção dos pensadores da época, mas Hume não foi compreendido. Ele teve a iniciativa de questionar o inquestionável até então, se opondo ao dogma da metafísica. É importante notar que Hume não colocou em questionamento a utilidade da conexão causa e efeito, mas sua possibilidade. Ela seria de extrema utilidade, se fosse possível. 

Tal dúvida proposta por David Hume leva ao tema do trabalho. 

Admito sem hesitar: a recordação de David Hume foi exatamente aquilo que, há muitos anos, primeiro interrompeu meu sono dogmático e deu uma direção completamente diversa às minhas investigações no campo da filosofia especulativa. (KANT, 2014, p. 28) 

Kant, ao se deparar com esse questionamento, no mínimo desconfortante, se sentiu na obrigação de defender a metafísica, por assim dizer. Immanuel Kant julgou o trabalho de Hume como decisivo, no entanto, incompleto. O empirista, ao questionar a possibilidade da metafísica, “ancorou seu barco, para mantê-lo seguro, na praia” do ceticismo, ao invés de dar continuidade à sua crítica. Kant, por sua vez, deseja tomar o timão do barco metafísico para terminar o serviço.  

Foi formidável o trabalho de David Hume, como o próprio Kant afirma. No entanto, o filósofo prussiano toma as rédeas da metafísica e decide levá-la a um lugar nunca antes explorado. Seria necessário, para se estabelecer um estatuto metafísico, explorar e explicar cada aspecto da razão pura a fim de se conseguir provar sua autonomia quanto à experiência.

Mas a razão pura é uma esfera tão isolada e tão completamente coesa em seu interior que não se pode tocar em nenhuma de suas partes sem perturbar todo o resto, nem ajustá-las sem que se tenha antes determinado para cada uma seu lugar e sua influência nas outras. (KANT, 2014, p.31)

Querendo provar a possibilidade da metafísica, Kant percebeu que, para isso, deveria provar a possibilidade de conceitos puros da razão.

Para isso, o autor decide analisar as ciências independentes dos sentidos que já possuem um estatuto. Ele analisa, nos Prolegômenos, o que torna possível a matemática pura, bem como a ciência pura da natureza, para chegar, então, naquilo que torna possível o estatuto da metafísica em geral. Entretanto, como bem apontado por Kant, nem a matemática pura e nem a ciência pura da natureza precisam 

de nenhuma dedução como a que realizamos até agora para ambas; pois a primeira apoia-se em sua própria evidência, e a segunda, embora surgindo de fontes puras do entendimento, apoia-se na experiência e em sua contínua confirmação […]. Assim, ambas as ciências necessitam da investigação precedente não para si próprias, mas com vistas a outra ciência, a saber, a metafísica. (KANT, 2014, p.107)

O fato de as cognições transcendentes da razão não serem passíveis de refutação ou confirmação por outro meio que não a própria razão foi o que levou Hume a cometer o erro em sua tese. De acordo com Kant, a “enumeração, classificação e especificação desses conceitos”, a saber, os tipos de cognição e também os “conceitos pertencentes a cada um deles”, não seria possível utilizá-los da maneira correta, ou seja, sem saber se “o que se possui já é o suficiente, ou se, e onde, algo ainda poderia estar faltando”. Por conta disso Hume foi tão importante para Kant e a metafísica. Sem a advertência humeana quanto ao dogma metafísico anterior, provavelmente Immanuel Kant não teria se empenhado de tal maneira para provar a possibilidade dos conceitos metafísicos.

O útil e o honesto em Cícero

O útil e o honesto em Cícero

A fim de esclarecer a proposição socrático-estóica de que o útil e o honesto não devem ser vistos como coisas diferentes, serão abordados aqui trechos do livro II de “Dos Deveres”. Trechos nos quais Cícero aponta precisamente o motivo pelo qual essas duas características estão intrinsecamente ligadas, o porquê de ser paradoxal afirmar que uma ação pode ser útil, mas não honesta, e vice-versa. Serão trazidos trechos que, mesmo que sozinhos, já explicariam essa unidade, entretanto, colocarei algumas citações selecionadas que justificam umas às outras para que seja possível precisar essa afirmação tão importante nas discussões de filosofia política ao longo da história.

Para que fiquem claras as afirmações aqui feitas é necessário elucidar o que será considerado útil e o que será considerado honesto. Por útil entender-se-á aquilo que favoreça a manutenção do poder do governante por meio da satisfação dos interesses e preferências do povo. Por outro lado, será considerado honesto aquilo que revela no governante uma elevação de caráter, uma ação que o qualifique como virtuoso, ético, justo, etc. Será visto que, apesar de definições diferentes, essas duas máximas são como retas paralelas sem distância entre si, será apontada uma fusão entre elas que, na visão de Cícero, as torna inseparáveis.

Iniciando pelo tópico 32, o autor afirma:

O amor da multidão é fortemente provocado pela fama e pela reputação de liberdade, benevolência, justiça, fé e todas aquelas virtudes associadas à serenidade e à brandura de costumes. (CÍCERO, 1999, p. 94)

Pode-se entender, por essa afirmação, que é praticamente inevitável o apreço do povo frente a um representante possuidor de características que, unidas, tornam um homem honesto, como apontado na definição feita no parágrafo anterior.

No tópico seguinte, 33, Cícero vai apontar que “nos homens justos e fiéis, isto é, nos bons [honestos], a fé é tanta que não há lugar para suspeitas de fraude ou injustiça”, e afirma, logo em seguida, que “julgamos acertado confiar a eles” até mesmo “nossos filhos”. Novamente é possível observar a união prática das duas máximas. O fato de o governante ser honesto, portador de virtudes apreciadas pelo povo, faz com que isso mantenha seu poder, pois os homens confiam cada vez mais suas vidas a ele. Ou seja, mais uma vez, o honesto sendo útil, e vice-versa.

Alguns tópicos adiante, no 36, é dito que as pessoas

exaltam e elogiam calorosamente as pessoas nas quais julgam perceber virtudes excelentes e singulares, e desdenham e desprezam aquelas em que acham não haver nem virtude, nem coragem, nem energia. (CÍCERO, 1999, p.95 – 96)

Este tópico é bastante incisivo quanto a qualquer tipo de dúvida, é deixado bem claro que os homens “admiram todas as coisas que julgam grandes e superiores à sua própria expectativa”, de modo que os elogios e admirações em direção do governante, virtuoso, honesto, são logicamente inevitáveis, não há nada que possa tornar isso uma inverdade. É bem quisto aquele que, segundo o autor, é visto como útil para si e para seu semelhante.

Posteriormente (38), apontar-se-á, novamente, a importância e a utilidade de ser justo. Cícero diz que “a justiça, virtude com base na qual os homens são considerados bons”, para a população, não é sem propósito, mas “prodigioso”. Ele ainda acrescenta que o homem justo realiza as “três condições” para a glória: “tanto a benevolência (porque deseja ser útil a muitos) quanto, pelo mesmo motivo, a fé e a admiração, porque desprezam e negligenciam aqueles atrativos para os quais a maioria, inflamada pela avidez, é arrastada”. É fácil perceber, então, a importância que o autor designa à justiça em meio a tantas outras virtudes. Obviamente quanto mais virtudes possuir, melhor, entretanto, caso se tenha todas as virtudes com exceção da justiça, receio que não será o bastante. A justiça deve ser “cultivada e preservada” por dois motivos: “tanto por si mesma (pois, de outra forma, não seria justiça), quanto para aumentar a honra e a glória”.

Existe, no tópico 43, uma citação de Sócrates que ilustra de maneira clara como o útil caminha junto com o honesto. A citação diz que

o caminho mais próximo e curto para a glória é ser o que se deseja parecer. Pois, se cuidam alguns obter glória estável com simulações e ostentação vã, não só com palavras, mas também com fisionomia fingida, erram cabalmente. A verdadeira glória deita raízes e até as espalha, mas os engodos caem rapidamente como flores miúdas; o que é simulado não pode ser duradouro. (CÍCERO, 1999, p. 99)

Essa é uma representação quase que perfeita de todo o tema tratado acima, pois torna necessária a verdadeira virtude caso se queira glória. Em outras palavras, para se ter a utilidade que as virtudes trazem consigo não basta parecer tê-las, não basta parecer, é necessário ser honesto, é obrigatória a posse verdadeira das virtudes.

Bastante possível e pertinente é, também, a comparação das afirmações feitas por Cícero com a ideia de felicidade na visão da filosofia estóica. Segundo Pierre Hadot:

A escolha estóica situa-se, assim, na linha reta da escolha socrática e é diametralmente oposta à escolha epicurista: a felicidade não consiste no prazer ou no interesse individual, mas na exigência do bem, ditada pela razão e que transcende o indivíduo. (HADOT, 1999, p. 188)

Percebe-se, novamente, a existência de algo que conecta a felicidade individual à do coletivo. Não há, segundo tal tradição, a felicidade individual enquanto o todo sofre, enquanto o todo está infeliz. De novo é percebida a relação paradoxal entre a alegria de um e a tristeza do todo. Aplicando isso à visão política, dita por Cícero, é inevitável afirmar, por consequência, que o útil ao governante deve necessariamente se harmonizar com o honesto.

Estas, entre muitas outras, são passagens tanto da obra de Cícero quanto da filosofia estóica que são capazes de reafirmar tal visão sobre o útil e o honesto. Toda atitude honesta será útil na medida em que é admirável, na visão do povo, um governante que seja virtuoso, justo e fiel. Por outro lado, toda ação útil será honesta, pois aquilo que mantém o poder do governante nada mais é do que o amor de seu povo, e este advém única e exclusivamente, na visão de Cícero, de atitudes virtuosas.